Mês: julho 2015

Sempre graciosa

Debbie Reynolds chega aos 75 anos mantendo aquele charme brejeiro e simpático que, junto ao talento, a tornou famosa

Dulce Damasceno de Brito e Sophia Loren e Debbie ReynoldsÉ impressionante como o tempo é menos cruel para alguns. Muitos chegam à terceira idade mantendo as mesmas características da juventude. Não me refiro só a aparência física que, atualmente, pode se beneficiar da cirurgia plástica. Mas a personalidade. Caso de Debbie Reynolds que, neste 1º de abril, completa 75 anos. Está certo, seu rosto apelou para o bisturi. E de uma forma que não alterou sua expressão risonha e franca. Como ela. O fato é que, na tela, em entrevistas e filmes para a TV, continua com a mesma graciosidade da época em que a conheci. Foi em fins de 1952, nos estúdios da Metro. Ela estava filmando É Desse Que Eu Gosto, comédia musical com Donald O’Connor, seu colega em Cantando na Chuva. Nos seus esplendorosos 20 anos, falou de seus planos, seus sonhos. Uma simpatia natural. Por isso, fiquei feliz quando fui incumbida de acompanha-la, com a também amável Pier Angeli, em uma viagem ao Brasil. Ela cativou a todos que a conheceram, principalmente na visita oficial aos estúdios da Vera Cruz, quando foi apresentada a Marisa Prado, John Herbert , Ruth de Souza, Vera Nunes, Rubens de Falco e outros de nossos astros. Meses depois, quando a encontrei em Hollywood filmando Romance de Minha Vida, ficamos um bom tempo recordando essa viagem. E falou também da ala hospitalar que, com seu dinheiro, estava construindo para crianças com doenças mentais. Ela se preocupava muito em ajudar os outros.

Debbie enfrentou momentos difíceis. Principalmente em 1959. Quando toda a mídia mostrou sua tristeza por ver sua melhor amiga, Elizabeth Taylor, “roubar” seu marido Eddie Fisher – um cantor e ator ruim. Depois, seu segundo marido, aparentemente um milionário, perdeu a fortuna dele e dela. A atriz de Tammy teve de dar a volta por cima, reconstruir o patrimônio. Casou-se pela terceira vez em 1984, mas divorciou-se em 1996. Durante um bom tempo era apontada como a mãe da princesa Leia, a personagem interpretada por sua filha Carrie Fisher na saga Guerra nas Estrelas. Nos últimos anos, voltou a brilhar. Ícone dos gays, destacou-se em Será Que Ele É? E em muitos episódios da série Will & Grace como a mãe da personagem vivida por Debra Messing. Há pouco vi imagens em que ela apareceu alegre ao lado de Elizabeth Taylor na festa dos 75 anos dessa estrela, em fevereiro. Parece que os ressentimentos ficaram para trás, a amizade entre as duas prossegue. Coerente com a personalidade naturalmente generosa de Debbie.

Texto originalmente publicado na Revista Set, na coluna Hollywood Boulevard. Abril, 2007 – Ed. 238 – Ano 20 – N.º 4. Editora Peixes.

O carisma de Sophia Loren

A exuberante estrela italiana primava por seu talento, beleza e pelas gostosas gargalhadas

Dulce Damasceno de Brito e Sophia Loren“Minha escola de arte dramática foi a própria vida. Nasci esperta. Esperta nas ruas, esperta com as pessoas, auto-esperta. Essa sabedoria foi meu direito nato. Também nasci velha. E ilegítima. O que significa ter de lutar pela cidadania. Mas as duas grandes vantagens que tive ao vir ao mundo foram ter nascido esperta e ter nascido pobre.” Estas palavras constam do prefácio do livro Sophia – Living and Loving que a estrela italiana ditou ao escritor americano A. E. Hotchner como espécie de autobiografia a quatro mãos.

Na verdade, quem diria que estava destinada à fama mundial aquela menina esquelética que perambulava pelas ruas de Nápoles à espera que os soldados americanos lhe atirassem barras de chocolate? Foi sua mãe quem lhe abriu o caminho. Apaixonada por cinema, levou as duas filhas para Roma para lhes conseguir trabalho de extras em um dos filmes que os americanos produziam nos estúdios da Cinecitá. A estreia de Sophia foi como uma das escravas de Deborah Kerr em Quo Vadis e, logo em seguida, participou de outras vinte produções de Carlo Ponti, que se apaixonou pela figurante napolitana e a batizou de Sophia Loren ao invés do complicado sobrenome Scicolone do pai ausente. Os anos 50 foram decisivos para a vida e a carreira de Sophia. Enquanto Ponti lutava para conseguir o divórcio de sua primeira mulher, a aspirante a atriz enfrentava a animosidade da imprensa marrom que teimava em publicar se o maior busto do cinema pertencia a Sophia ou Gina Lollobrigida.

O tempo provou qual das duas tinha talento. “Importada” por Hollywood, Sophia foi recebida em várias festas às quais compareci como representante da imprensa estrangeira. Sempre acompanhada por Cary Grant, não aceitou seu pedido de casamento por já estar comprometida com Ponti. Por causa da burocracia italiana, os dois só puderam se casar em 1957 no México, por procuração, depois o sacramento foi repetido e legalizado na França em 1966. Foi uma época gloriosa em que Sophia realizou seu sonho de ser mãe: Carlo Ponti Junior nasceu em 1968 e Edoardo em 1972. Profissionalmente o que lhe faltava veio em 1961; o Oscar por Duas Mulheres. A partir daí, ela lançou sua frase história: “Antes de Duas Mulheres, eu era só uma intérprete. Agora, posso me qualificar como atriz!”.

No próximo dia 20 de setembro, Sophia comemora 69 anos (ou 71 segundo algumas biografias). Lembro-me dos nossos contatos em Hollywood e do fato de só tê-la visto abatida uma única vez, pois ela sempre primou pelas gostosas gargalhadas. O dia triste que a vi foi na filmagem da Paramount na última cena de Tentação Morena, em que ela se casava com Cary Grant. Naquele mesmo dia, dois advogados compareciam a um cartório de Juarez, no México, mediante procurações dos famosos clientes. Grant saiu do set arrasado enquanto Sophia comentava com o diretor George Cukor: “É num momento desses que a representação e a vida real se tocam e se misturam, exigindo do ator uma performance realmente carismática…”.

Texto originalmente publicado na Revista Set, na coluna Hollywood Boulevard. Junho, 2003 – Ed. 192 – Ano 16 – N.º 6. Editora Peixes.

Verdade… ou crueldade

Celebridades do passado também tinham suas exigências, mas nem sempre tão excêntricas

Dulce Damasceno de Brito e Leslie CaronQuando entrevistei Joan Crawford pela primeira vez, presenciei algo que demonstrava todo o poder de uma estrela hollywoodiana. O assessor do estúdio (Universal) trouxe-lhe um monte de fotografias para ela selecionar as que deveriam ser copiadas e enviadas à imprensa. Pedindo-me licença pela interrupção, mas sem a menor cerimônia, Joan simplesmente rasgou a maioria das fotos, aprovando apenas meia dúzia. Era assim que funcionava o “star system” da época.

Por outro lado havia estrelas que, ignorando tais prerrogativas, aborreciam-se com a publicação de suas fotos em ângulos desfavoráveis. Leslie Caron era considerada excelente atriz e bailarina, mas não uma mulher bonita. Por isso, sempre que podia, evitava ser fotografada com flashes. Era rotina nos estúdios a presença de um stillman para que, logo após a entrevista com os astros ou estrelas do set, os jornalistas pudessem ser fotografados com eles. Fiz três entrevistas com Leslie – durante as filmagens de Lili, Sapatinhos de Cristal e Gigi. Nas duas primeiras fomos fotografadas no seu camarim, com uso de flash, mas, na última, a estrela recusou o fotógrafo do set sugerindo outro método. Assegurando que não se tratava de simples vaidade, convidou-me para ir ao estúdio fotográfico da Metro – que usava focos de luz em vez de flashes -, pois fazia questão de documentar nosso reencontro. Mas, por causa da enorme distância entre os prédios do estúdio, precisaríamos de um carro, que a atriz estava prestes a pedir pelo telefone quando, ouvindo nossa conversa, Cecil Beaton nos ofereceu carona. Beaton havia criado o guarda-roupa de Gigi, pelo qual recebeu o Oscar de 1958. Durante o trajeto na sua limusine, comentou ter assistido na Broadway ao musical My Fair Lady, com Rex Harrison e Julie Andrews, espetáculo que considerava o melhor de toda a história do teatro. Lembrei-me dessa conversa sete anos depois quando fui cumprimentá-lo no banquete da Academia, na noite em que recebeu outro Oscar: pelo figurino de Audrey Hepburn na versão cinematográfica de My Fair Lady. Quanto a Leslie Caron – que fez 70 anos neste 1º de setembro – continuou sua carreira agora como atriz dramática, devido à escassez dos musicais. Ainda recentemente apareceu no delicioso Chocolate, mas sua performance mais marcante para a crítica foi a extravagante lésbica Nazimova na biografia de Ken Russell, Valentino, com Rudolf Nureyev (1977).

Analisando a vaidade ou crueldade das estrelas, temos um bom exemplo na nova produção do irreverente John Waters, Cecil Bem Demente, em que a talentosa Melanie Griffith interpreta uma atriz hollywoodiana esbanjando estrelismo. E, apesar dos exageros, a história tem a autenticidade reconhecida por aqueles que conviveram com elas na conturbada Hollywood. Como a autora desta coluna.

Texto originalmente publicado na Revista Set, na coluna Hollywood Boulevard. Outubro, 2001 – Ed. 172 – Ano 15 – N.º 10. Editora Peixes.

Sobre a criação da página Dulce Damasceno de Brito

Dulce Damasceno de BritoReler as colunas da jornalista Dulce Damasceno de Brito é uma evidência de que Hollywood definitivamente mudou, bem como as suas maiores estrelas. Como correspondente estrangeira, Dulce desembarcou na terra cinematográfica dos sonhos justamente quando esta vivia o seu auge: a era de ouro. E a sua relação com os astros foi a mais estreita possível, conseguindo compartilhar com os seus leitores, seja à época ou agora, a intimidade de famosos durante o intervalo das gravações de uma produção.

Referência para muitos cinéfilos, a Revista Set teve como um dos maiores acertos de sua história o resgate das memórias de Dulce, que tiveram como destino a coluna Hollywood Boulevard. É justamente ela que busco rever para prestar uma homenagem à Dulce, com postagens semanais em que são redigidas os seus textos, ilustrados com as digitalizações de imagens de seu arquivo pessoal.

Com a morte de Dulce em 9 de novembro de 2008 e o fim da Revista Set, senti que nenhum espaço virtual foi capaz de preservar o seu trabalho carinhoso, atualmente restrito àqueles que garimpam sebos em busca de revistas e os livros de sua autoria, como “Hollywood Nua e Crua” e “Lembranças de Hollywood”. Portanto, a página vem para preencher esta lacuna, bem como (re)apresentar algumas surpresas de grandes nomes do cinema que seguem encantando o imaginário coletivo por meio das palavras da jornalista.

Onde quer que esteja, espero que Dulce tenha aprovado esta iniciativa.

Alex Gonçalves
Cine Resenhas | Clube do VHS
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