Mês: agosto 2015

O senhor das guerras

Tendo enfrentado nos filmes as mais diversas batalhas, Charlton Heston vive uma luta difícil

Charlton HestonCom uma aparência que sugeria força e dignidade, Charlton Heston conseguiu em 1956 o cobiçado papel de Moisés no épico Os Dez Mandamentos. Seu realizador, Cecil B. de Mille, levou em conta também o talento do ator e a sua vida pessoal, impecável em uma Hollywood cheia de condutas libertinas. O seu desempenho foi um sucesso e daí em diante ele passou a protagonizar líderes destemidos das mais diversas épocas, alguns verdadeiros. Como o general Andrew Jackson em Latife, o Corsário, o espanhol Rodrigo Diaz em El Cid, o imperador Júlio César no filme com esse título, além de Ben-Hur (que lhe valeu o Oscar de melhor ator em 1959), Taylor em O Planeta dos Macacos e Chrysagon em O Senhor da Guerra.

Na sua vida, ele também teve atitudes éticas típica dos grandes heróis. Em 1965 quando atuava em Juramento de Vingança, soube que os produtores se negavam a dar mais dinheiro e tempo para o diretor Sam Peckinpah, que havia estourado o prazo e o orçamento. Heston decidiu então abrir mão de seu salário e assim garantir a conclusão do western.

Tive a oportunidade de entrevistar o ator várias vezes em Hollywood e no Brasil. Em todas as ocasiões, fiquei emocionada com a sua sensualidade e o seu comportamento gentil. No Rio de Janeiro, quando veio promover S.O.S. Submarino Nuclear, Heston me recebeu em sua suíte no hotel. Ele só interrompeu nosso agradável bate-papo para levar o café-da-manhã à sua esposa Lydia Clark. O casamento dura desde 1944, com dois filhos: Fraser, que é diretor de cinema, e Holly Ann, adotada.

Agora, aos 81 anos (completados em 4 de outubro), Heston enfrenta uma nova batalha, fora das telas: o mal de Alzheimer, doença degenerativa das mais cruéis, a mesma que provocou o declínio de Rita Hayworth. Só que, ao contrário da bela atriz de Gilda, que levou anos para saber que seus problemas decorriam do Alzheimer, ele já está consciente disso há algum tempo e, por isso, tratou de se despedir da imprensa, logo após comparecer com a esposa à festa dos 90 anos da Paramount. O casal vinha de outra luta, vitoriosa, contra o câncer: ele na próstata e ela no seio. Mas coerente com as “guerras” íntimas e coletivas vividas por seus personagens, Charlton Heston vai também ter um comportamento digno e tenaz nessa dramática situação.

Texto originalmente publicado na Revista Set, na coluna Hollywood Boulevard. Novembro, 2003 – Ed. 197 – Ano 16 – N.º 11. Editora Peixes.