Mês: setembro 2015

Romântico até o fim

A história real de Charles Boyer, mais trágica do que seus filmes

Charles BoyerEm primeiro lugar vamos deixar uma coisa bem clara: o ator Charles Boyer foi o único francês a fazer carreira no cinema americano como astro de primeira grandeza. Outros, como Maurice Chevalier e Alain Delon, participaram de filmes made in USA mas nunca conseguiram rivalizar com os galãs tipo Gary Cooper ou Clark Gable. Nascido em Figeac, França, em 1899, se fosse vivo Boyer estaria completando 100 anos no próximo dia 28 de agosto. Não o conheci pessoalmente, mas sua vitoriosa e trágica vida merece ser conhecida.

Charles Boyer iniciou-se como ator em 1920 no cinema francês e sete anos depois foi dirigido pelo nosso conterrâneo Albert Cavalcanti em Le Capitaine Fracasse. Estreou em Hollywood em 1931 em The Magnificent Lie e daí por diante – já apelidado “o grande amante” – foi galã das maiores estrelas da época, de Katherine Hepburn a Ingrid Bergman. Seu Napoleão Bonaparte em Madame Waleska é considerado o mais perfeito do cinema. Também foi marcante em Duas Vidas, a primeira versão de Tarde Demais Para Esquecer; e nas veladas cenas de amor em Tudo Isto e o Céu Também. Boyer ficou famoso como o irresistível romântico de voz acariciante e de olhar explosivo.

Charles BoyerMas não era apenas o charme que o identificava. Embora nunca vencedor, foi quatro vezes indicado ao Oscar: em 1937 por Madame Waleska; em 1938, por Argélia; em 1944, por À Meia Luz; e em 1961, por Fanny. E também recebeu em 1942 um certificado especial da Academia – equivalente ao atual Oscar Honorário – pela Fundação que organizou para ajudar a Resistência Francesa durante a Segunda Guerra Mundial. Seu carisma não era limitado apenas ao cinema. Na vida real foi um cidadão exemplar que viveu um romance tão belo como os que interpretou. Em 1934, embora disputadíssimo pelo mulherio hollywoodiano, casou-se com a atriz inglesa Patricia Paterson, que abandonou uma promissora carreira para se dedicar apenas ao marido. Após dez anos de felicidade, Pat deu a ele um filho, Michael.

A vida, entretanto, pregou uma peça em Charles Boyer: em 1965, então com 21 anos, Michael suicidou-se com um tiro na cabeça na presença da namorada, que recusara seu pedido de casamento. Abaladíssima com a trágica morte do filho único, Pat nunca mais foi a mesma. Charles, já sem a pinta de galã, tentou afogar as mágoas em papéis nada glamourosos, como em A Louca de Chaillot e Horizonte Perdido. Preocupado com a saúde da mulher, mudou-se para a Suíça, só indo a Hollywood e a Paris para filmar. Em agosto de 1978 – dias antes de Charles fazer 79 anos -, Pat morreu de câncer. A dor de Boyer durou pouco: 48 horas depois, ele tomou uma dose fatal de soporíferos, fechando sua tragédia de modo romântico. Ironicamente, seu último filme chamou-se Questão de Tempo, em que contracenou com a velha amiga Ingrid Bergman. A filha de Ingrid, Isabella Rossellini, que estreou no cinema nesse filme, lembra: “Apesar de já estar com 77 anos, Charles Boyer continuava emanando aquele carisma de grande romântico e uma personalidade inesquecível!”.

Texto originalmente publicado na Revista Set, na coluna Hollywood Boulevard. Abril, 1999 – Ed. 142 – Ano 13 – N.º 4. Editora Peixes.

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