Mês: outubro 2015

A maldição do Superman

Assim como outros atores, Margot Kidder, que interpretou Lois Lane em quatro filmes com o super-herói, também enfrentou tragédias pessoais

Leio na SET que um novo Superman está surgindo. Ótimo. Mas estremeço ao lembrar os dramas que envolveram não só dois atores relacionados ao herói, como também uma de suas atrizes. A imprensa sempre deu mais realce ao suicídio de George Reeves (o Superman da década de 1950 no cinema e na TV) em setembro de 1959, aos 45 anos, e à tragédia de Christopher Reeve, o herói dos quatro filmes realizados entre 1978 e 1987. Este último viu a sua vida mudar radicalmente após cair do cavalo. Por cerca de dez anos até a sua morte em outubro de 2004, ele ficou paralisado, preso a uma cadeira de rodas. Mas o belo e vigoroso ator enfrentou o sofrimento com estoicismo, como um verdadeiro super-homem.

Talvez por causa da dimensão desse triste episódio, os problemas enfrentados por Margot Kidder não ganharam realce. Ela ficou mais conhecida depois que interpretou Lois Lane, a namorada de Clark Kent (Christopher Reeve) nos quatro longas. A primeira tragédia aconteceu em 1990, quando sofreu um desastre de casso que afetou seriamente sua região pélvica. Por dois anos, lutou contra as sequelas e ficou sem trabalhar. Nesse período de imobilização, recebeu o conforto de Christopher, que ainda podia se locomover.

Em 1996, Margot foi encontrada pela polícia vagando por uma estrada e falando frases desconexas. Estava totalmente sem controle. Encaminhada para tratamento, em pouco tempo ficou claro que ela havia sofrido uma grave crise de depressão. Dois acidentes, um físico e outro mental, quase simultaneamente. Coincidência ou azar decorrente de Superman?

Margot KidderÉ verdade que a atriz canadense já tinha um histórico pesado. Nascida em 17 de outubro de 1948, aos 14 anos esboçou uma tentativa de suicídio. A sua vida amorosa também foi tumultuada. Casou-se por três vezes, uma delas com o cineasta francês Philipe de Broca. Cada matrimônio durou, em média, um ano. Teve ainda relações complicadas com Brian de Palma e Pierre Trudeau, o polêmico primeiro-ministro do Canadá. Isso sem falar nos incidentes provocados por seu ativismo político.

Embora tenha perdido o prestígio, a carreira de Margot não parou. Nos últimos anos atuou em filmes para a TV. Inclusive em dois episódios de Smalville, como a dra. Brigitte, enviada de Kripton. A atriz se diz salva graças à medicina ortomolecular. Pode ser. Mas, assim como se diz que: “Não creio em bruxas, mas que elas existem, existem”, penso dessa maneira na maldição do Superman.

Texto originalmente publicado na Revista Set, na coluna Hollywood Boulevard. Junho, 2005 – Ed. 216 – Ano 18 – N.º 6. Editora Peixes.

Alegria de fachada

Animados em público, deprimidos em casa. Elvis Presley, Liza Minnelli e Cher estão entre as mais notórias vítimas da alegria de fachada

Em Memphis, onde construiu a fabulosa mansão batizada de Graceland, ou em Beverly Hills, onde mantinha uma casa, Elvis Presley sociabilizava-se de uma estranha maneira: alugava um cinema inteiro, comprando a última sessão, e convidava seus músicos, seguranças e empregados com as respectivas famílias para ver o filme em exibição. É claro que, com sua fortuna, poderia ter uma sala de cinema em casa – mas o divertido era ir a um lugar público e sentir que fazia parte da comunidade. Elvis comprava pipoca, cachorro-quente e refrigerante para todos e se acomodava como qualquer espectador, deliciando-se com a reação daquele público – algo que não poderia fazer normalmente porque, se entrasse num cinema comum, seria assediado e causaria tumulto.

Cher e Liza MinnelliO rei do rock divertia-se a valer com essas proezas. Mas, conforme revelou sua mulher, Priscilla, no final da noite ele se recolhia ao quarto em depressão profunda. Recorria a pílulas para dormir e, de manhã, tomava estimulantes para acordar e enfrentar a vila solitária de um astro famoso.

Também Liza Minnelli é exuberante e tem um riso que anima qualquer festa. Dança, canta e bebe com aparente prazer, mas ninguém pode imaginar que, ao voltar para casa, sinta uma tremenda solidão. Falta de filhos? Talvez não. Sua mãe, Judy Garland, também era assim: alegre e divertida nos jantares e muito triste na intimidade – o que a levou a uma autodestruição semelhante ao suicídio.

Um dos melhores exemplos dessas personalidades controvertidas é Carrie Fisher, autora do livro Postcards from the Edge (Cartões-Postais da Beira do Abismo), que ela própria adaptou para o filme Lembranças de Hollywood. No elenco, Meryl  Streep brilhou no papel de Carrie e Shirley MacLaine fez sua mãe, Debbie Reynolds. Ambas enfrentaram uma barra pesadíssima quando Liz Taylor “roubou” o marido da amiga Debbie – o cantor Eddie Fisher, pai de Carrie. Na ocasião, a revista Life estampou na capa uma foto de Carrie, então com três anos, no colo da mãe, contando como o lar das duas fora destruído por Liz. Carrie cresceu num ambiente tumultuado e viciou-se em drogas ainda adolescente. A alegria que manifestava junto dos amigos era incentivada artificialmente. Porque, na vida particular, a Princesa Leia de Guerra nas Estrelas era uma garota deprimida. Seu casamento com o cantor Paul Simon durou menos de um ano – o suficiente apenas para o nascimento de uma filha, Billie, que também não conseguiu mudar a personalidade de Carrie.

Outra que sempre foi uma típica “arroz-de-festa”, iluminando qualquer evento com seu maravilho exotismo, é Cher. Mas, segundo seus ex-maridos Sonny Bono e Gregg Allman, em casa ela é uma das criaturas mais tristes do mundo. A vida de Cher, na verdade, tem sido uma sucessão de altos e baixos, em que atuações elogiadas se alternam com golpes como a síndrome do cansaço crônico, da qual foi vítima, e o sentimento de culpa pela opção homossexual da filha Chastity. Não é uma vida tão diferente da dos outros mortais – só que estes não precisam fingir alegria o tempo todo, pois não estão sempre sob a mira da imprensa.

Texto originalmente publicado na Revista Set, na coluna Hollywood Boulevard. Novembro, 1996 – Ed. 113 – Ano 10 – N.º 11. Editora Azul.