Uma espanhola em Hollywood

Apontada como o maior mito feminino da Espanha, Sarita Montiel foi uma das únicas atrizes de seu país que chegou a fazer filmes no cinema americano

Ao longo dos anos, Hollywood mostrou ser receptiva a inúmeras atrizes de países da Europa que não fosse a Inglaterra. Mas, da Espanha, só me lembro de duas: a recente Penélope Cruz e Sarita Montiel. Esta última é, sem dúvida, o maior mito surgido no cinema de seu país. Filmes como El Último Cuplê e La Violetera a tornaram mundialmente popular, especialmente no Brasil. Mas antes desses êxitos estrondosos e a consagração por volta de 1957 e 1958, a estrela nascida na pequena Campo de Criptana, em 10 de março de 1928, já tinha participado de algumas produções na Califórnia, onde chegou como intérprete importante de longas espanhóis e mexicanos.

Sarita Montiel  e Dulce Damasceno de BritoSua estreia em Hollywood deu-se em 1954, no western Vera Cruz, com Gary Cooper, há pouco foi lançado em DVD pela Warner. Mas eu a conheci em 1955, quando filmava Serenata nos estúdios Warner. Era um melodrama dirigido por Anthony Mann, moldado a favor do cantor lírico Mario Lanza e que tinha Joan Fontaine no elenco. O papo com Sarita foi ótimo porque ela tinha morado um bom tempo em São Paulo, filmando o inacabado O Americano, com Glenn Ford. E aqui fez várias amizades, algumas mais íntimas. Na conversa, não fez nenhuma referência elogiosa a Mario Lanza que, de fato, era insuportável, porém falou com carinho da delicada Joan e principalmente do diretor, com quem se casaria em 1957. Nesse ano, ela fez o seu último filme americano. Apesar da união com Mann, a atriz se dedicaria apenas ao cinema de seu país, aos discos e às suas apresentações como cantora em todo o planeta. Mann, sim, foi para a Espanha onde fez o belo El Cid. “Foi minha a ideia de El Cid, pois Tony, como um típico americano, não tinha boa cultura sobre a história da Europa”, disse a atriz entre um charuto e outro em 1999, em uma das muitas vezes em que veio ao Brasil. Fiquei espantada ao vê-la fumar daquele jeito e naquela idade. Na ocasião, ela permaneceu por quatro meses hospedada na residência da amiga paulista Lúcia Prades, no bairro de Higienópolis, em São Paulo.

O casamento com Mann, que durou quatro anos, foi o primeiro de quatro. A última vez em que veio ao Brasil, em 2002, ela estava em lua-de-mel com o cubano Tony Hernández, uns 35 anos mais jovem que Sarita. Aclamada no Festival de Fortaleza, afirmou que, por causa dele, tinha finalmente largado o hábito de fumar. Mas a união terminou em 2005. Mãe de dois filhos adotivos, um deles brasileiro, a atriz vive em Madri fazendo aparições na TV e ainda sendo reverenciada pelo público e por cineastas como Pedro Almodóvar, que a homenageou em Má Educação. Nada mau para uma senhora de 77 anos.

Texto originalmente publicado na Revista Set, na coluna Hollywood Boulevard. Setembro, 2005 – Ed. 219 – Ano 18 – N.º 9. Editora Peixes.

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Um comentário sobre “Uma espanhola em Hollywood

  1. Sempre gostei muito das matérias escritas por Dulce Damasceno de Brito, nas revistas “O Cruzeiro”, “Contigo” e “Set”.Foi sem dúvida uma grande jornalista do meio cinematográfico.
    (www.yakocine.blogspot.com)

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