Beleza não se põe na mesa

De visual “largado”, os astros de hoje se despem de beleza e apostam em talento para alcançar o sucesso

Na última entrega do Oscar, o primeiro apresentador foi Tom Cruise com a barba por fazer e usando um terno comum. Em outros tempos, a própria Academia teria exigido uma aparência mais condizente com o luxuoso espetáculo e com o status do famoso astro. Convém lembrar que, na cerimônia de 1964, Sidney Poitier foi de casaca receber seu Oscar de melhor ator de 1963. A diferença é que na ocasião ainda imperava o star system. Embora malhado pelos críticos metidos a intelectuais, os grandes estúdios exigiam que seus contratados fizessem jus ao estrelato conquistado através dos filmes. E, principalmente, não desapontassem sua legião de fãs. Também era muitíssimo respeitada a opinião da imprensa. Lembro-me bem de quando fui entrevistar Tyrone Power no seu camarim na Columbia no qual ele descansava durante a filmagem de Melodia Imortal. Ao me ver entrando, o astro colocou o paletó para me receber. Atitude de um perfeito gentleman. Outro que me impressionou pelo cavalheirismo e elegância foi John Travolta. Em outubro de 1981, quando veio ao Brasil lançar o filme de Brian de Palma Um Tiro na Noite, ele me recebeu para um almoço no hotel Sheraton do Rio e, depois, batemos um longo papo em sua suíte. Sempre de terno e gravata, o astro parecia bem à vontade – um perfeito anfitrião. É curioso, mas Tyrone e John Travolta foram os homens mais bonitos que conheci, ambos “made in Hollywood”.

Tyrone Power e Dulce Damasceno de BritoAtualmente, o procedimento dos astros mudou de figura. Free lancers já não têm de prestar contas aos chefes de grandes estúdios e só têm contato com a imprensa para a divulgação de seus filmes. Nessa fase de independência muitos não se conformam em ser apenas galãs e se tornaram diretores premiados como Kevin Costner (Dança com Lobos, Oscar de 1990), Mel Gibson (Coração Valente, Oscar de 1995) e Antonio Banderas (Loucos do Alabama, ótimo trabalho ignorado pela Academia). Nenhum destes contava com a experiência de veteranos do gênero como Robert Redford e Clint Eastwood, mas sua intenção era provar que, simplesmente, possuíam talento para cineastas, além da boa aparência de galã. Porque nem na sofisticada Hollywood beleza não se põe na mesa, como diz a velha expressão popular. Se bastasse isso, já teriam consagrados belíssimos atores como Lorenzo Lamas e Rob Lowe, que tentaram o cinema e acabaram em séries de televisão. Diante do que se conclui, nem está mais na moda dizer: “Você é tão bonito que devia estar no cinema!”

Texto originalmente publicado na Revista Set, na coluna Hollywood Boulevard. Maio, 2002 – Ed. 179 – Ano 15 – N.º 5. Editora Peixes.

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