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Alegria de fachada

Animados em público, deprimidos em casa. Elvis Presley, Liza Minnelli e Cher estão entre as mais notórias vítimas da alegria de fachada

Em Memphis, onde construiu a fabulosa mansão batizada de Graceland, ou em Beverly Hills, onde mantinha uma casa, Elvis Presley sociabilizava-se de uma estranha maneira: alugava um cinema inteiro, comprando a última sessão, e convidava seus músicos, seguranças e empregados com as respectivas famílias para ver o filme em exibição. É claro que, com sua fortuna, poderia ter uma sala de cinema em casa – mas o divertido era ir a um lugar público e sentir que fazia parte da comunidade. Elvis comprava pipoca, cachorro-quente e refrigerante para todos e se acomodava como qualquer espectador, deliciando-se com a reação daquele público – algo que não poderia fazer normalmente porque, se entrasse num cinema comum, seria assediado e causaria tumulto.

Cher e Liza MinnelliO rei do rock divertia-se a valer com essas proezas. Mas, conforme revelou sua mulher, Priscilla, no final da noite ele se recolhia ao quarto em depressão profunda. Recorria a pílulas para dormir e, de manhã, tomava estimulantes para acordar e enfrentar a vila solitária de um astro famoso.

Também Liza Minnelli é exuberante e tem um riso que anima qualquer festa. Dança, canta e bebe com aparente prazer, mas ninguém pode imaginar que, ao voltar para casa, sinta uma tremenda solidão. Falta de filhos? Talvez não. Sua mãe, Judy Garland, também era assim: alegre e divertida nos jantares e muito triste na intimidade – o que a levou a uma autodestruição semelhante ao suicídio.

Um dos melhores exemplos dessas personalidades controvertidas é Carrie Fisher, autora do livro Postcards from the Edge (Cartões-Postais da Beira do Abismo), que ela própria adaptou para o filme Lembranças de Hollywood. No elenco, Meryl  Streep brilhou no papel de Carrie e Shirley MacLaine fez sua mãe, Debbie Reynolds. Ambas enfrentaram uma barra pesadíssima quando Liz Taylor “roubou” o marido da amiga Debbie – o cantor Eddie Fisher, pai de Carrie. Na ocasião, a revista Life estampou na capa uma foto de Carrie, então com três anos, no colo da mãe, contando como o lar das duas fora destruído por Liz. Carrie cresceu num ambiente tumultuado e viciou-se em drogas ainda adolescente. A alegria que manifestava junto dos amigos era incentivada artificialmente. Porque, na vida particular, a Princesa Leia de Guerra nas Estrelas era uma garota deprimida. Seu casamento com o cantor Paul Simon durou menos de um ano – o suficiente apenas para o nascimento de uma filha, Billie, que também não conseguiu mudar a personalidade de Carrie.

Outra que sempre foi uma típica “arroz-de-festa”, iluminando qualquer evento com seu maravilho exotismo, é Cher. Mas, segundo seus ex-maridos Sonny Bono e Gregg Allman, em casa ela é uma das criaturas mais tristes do mundo. A vida de Cher, na verdade, tem sido uma sucessão de altos e baixos, em que atuações elogiadas se alternam com golpes como a síndrome do cansaço crônico, da qual foi vítima, e o sentimento de culpa pela opção homossexual da filha Chastity. Não é uma vida tão diferente da dos outros mortais – só que estes não precisam fingir alegria o tempo todo, pois não estão sempre sob a mira da imprensa.

Texto originalmente publicado na Revista Set, na coluna Hollywood Boulevard. Novembro, 1996 – Ed. 113 – Ano 10 – N.º 11. Editora Azul.

Sempre graciosa

Debbie Reynolds chega aos 75 anos mantendo aquele charme brejeiro e simpático que, junto ao talento, a tornou famosa

Dulce Damasceno de Brito e Sophia Loren e Debbie ReynoldsÉ impressionante como o tempo é menos cruel para alguns. Muitos chegam à terceira idade mantendo as mesmas características da juventude. Não me refiro só a aparência física que, atualmente, pode se beneficiar da cirurgia plástica. Mas a personalidade. Caso de Debbie Reynolds que, neste 1º de abril, completa 75 anos. Está certo, seu rosto apelou para o bisturi. E de uma forma que não alterou sua expressão risonha e franca. Como ela. O fato é que, na tela, em entrevistas e filmes para a TV, continua com a mesma graciosidade da época em que a conheci. Foi em fins de 1952, nos estúdios da Metro. Ela estava filmando É Desse Que Eu Gosto, comédia musical com Donald O’Connor, seu colega em Cantando na Chuva. Nos seus esplendorosos 20 anos, falou de seus planos, seus sonhos. Uma simpatia natural. Por isso, fiquei feliz quando fui incumbida de acompanha-la, com a também amável Pier Angeli, em uma viagem ao Brasil. Ela cativou a todos que a conheceram, principalmente na visita oficial aos estúdios da Vera Cruz, quando foi apresentada a Marisa Prado, John Herbert , Ruth de Souza, Vera Nunes, Rubens de Falco e outros de nossos astros. Meses depois, quando a encontrei em Hollywood filmando Romance de Minha Vida, ficamos um bom tempo recordando essa viagem. E falou também da ala hospitalar que, com seu dinheiro, estava construindo para crianças com doenças mentais. Ela se preocupava muito em ajudar os outros.

Debbie enfrentou momentos difíceis. Principalmente em 1959. Quando toda a mídia mostrou sua tristeza por ver sua melhor amiga, Elizabeth Taylor, “roubar” seu marido Eddie Fisher – um cantor e ator ruim. Depois, seu segundo marido, aparentemente um milionário, perdeu a fortuna dele e dela. A atriz de Tammy teve de dar a volta por cima, reconstruir o patrimônio. Casou-se pela terceira vez em 1984, mas divorciou-se em 1996. Durante um bom tempo era apontada como a mãe da princesa Leia, a personagem interpretada por sua filha Carrie Fisher na saga Guerra nas Estrelas. Nos últimos anos, voltou a brilhar. Ícone dos gays, destacou-se em Será Que Ele É? E em muitos episódios da série Will & Grace como a mãe da personagem vivida por Debra Messing. Há pouco vi imagens em que ela apareceu alegre ao lado de Elizabeth Taylor na festa dos 75 anos dessa estrela, em fevereiro. Parece que os ressentimentos ficaram para trás, a amizade entre as duas prossegue. Coerente com a personalidade naturalmente generosa de Debbie.

Texto originalmente publicado na Revista Set, na coluna Hollywood Boulevard. Abril, 2007 – Ed. 238 – Ano 20 – N.º 4. Editora Peixes.